Pular para o conteúdo
Ponto Cego

Criminologia · Políticas Públicas

O Balrog de Medellín

Por que matar o monstro não fecha a mina

Victor A. · · 8 min de leitura

Montanha desenhada em linhas claras sobre fundo escuro, refletida como num espelho, com túneis que descem até um ponto vermelho brilhante no fundo.

O que dormia sob a montanha

Matar Pablo Escobar não acabou com o tráfico de cocaína na Colômbia, e Tolkien ajuda a entender por quê.

Em O Senhor dos Anéis, as Minas de Moria eram o maior reino dos anões. Durante séculos, eles cavaram atrás do mithril, um metal mais leve que o aço e mais valioso que o ouro. Quanto mais fundo cavavam, mais mithril encontravam, e os anões não pararam de descer.

Lá embaixo, alguma coisa dormia. Quando a escavação chegou até ela, o Balrog acordou, matou o rei e esvaziou o reino em poucos anos. Os anões passaram a chamá-lo de Ruína de Durin1.

A versão popular da história de Escobar se parece com a lenda do Balrog: um monstro surge do nada, aterroriza um país e é finalmente derrotado por heróis. Este ensaio propõe ler a mesma história pelo outro lado. A pergunta não é quem era o monstro. É quem estava cavando.

A mina antes do monstro

Em Moria, a cobiça veio antes do Balrog. Tolkien é explícito2: o desastre aconteceu porque os anões cavaram com ganância e fundo demais. O monstro foi a consequência, não a origem.

Com Escobar, a ordem é a mesma. O mercado consumidor dos Estados Unidos pagava preços altíssimos por um produto barato de fabricar nos Andes: segundo o criminologista Peter Reuter, a matéria-prima de um quilo de cocaína custava menos de mil dólares na roça e o quilo rendia bem mais de cem mil nas ruas americanas3. Esse diferencial de preço era o mithril: uma fonte de riqueza tão grande que alguém, inevitavelmente, iria explorá-la.

A escavação tinha outras ferramentas. Periferias de Medellín sem Estado, sem emprego formal e sem perspectiva4. Um sistema judicial frágil e fácil de comprar5. Elites locais que lavavam dinheiro em clubes de futebol6 sem fazer muitas perguntas.

Nada disso explica Escobar como indivíduo: sua ambição, sua inteligência e sua crueldade foram dele. Mas explica por que havia um espaço do tamanho de Escobar esperando para ser ocupado. Se não fosse ele, a mina teria acordado outra coisa.

Sombra e chama

O Balrog de Tolkien é feito de duas coisas que não deveriam caber juntas: sombra e fogo. Ele escurece o ambiente e o ilumina ao mesmo tempo. Escobar tinha a mesma natureza dupla, e é ela que torna sua figura tão difícil de explicar.

Para parte de Medellín, ele era a chama que aquecia. Construiu cerca de 200 casas para famílias que viviam no lixão de Moravia, jogava futebol com os jovens e distribuía material escolar para as crianças7. Para esses moradores, virou uma espécie de Robin Hood8, e o bairro, erguido pelo programa Medellín sin Tugurios, até hoje é conhecido como Barrio Pablo Escobar e tem murais com o rosto dele.

Para o resto da Colômbia, ele era a sombra. Sob a lógica do plata o plomo, suborno ou bala, juízes, policiais e jornalistas que tentaram detê-lo foram assassinados9. O ministro da Justiça Rodrigo Lara Bonilla foi morto a mando dele em abril de 198410, e em novembro de 1989 o voo 203 da Avianca explodiu no ar com 107 pessoas a bordo, num atentado que a Justiça atribuiu ao cartel de Medellín11.

O ponto cego está aqui: as duas faces não se anulam, elas se alimentam. A chama comprava lealdade, e a lealdade escondia a sombra. Um Estado ausente deixou que um criminoso ocupasse o lugar de provedor, e esse lugar virou seu escudo.

A ponte de Khazad-dûm

A cena mais famosa de Moria é a ponte. Gandalf enfrenta o Balrog sozinho, quebra a ponte sob os pés do inimigo e vence. Mas, no último instante, o chicote de fogo o alcança, e Gandalf é arrastado para o abismo junto com o monstro.

A caçada a Escobar terminou do mesmo jeito: o Estado venceu, mas caiu junto. Em janeiro de 1993, surgiu o grupo Los Pepes12, sigla de Perseguidos por Pablo Escobar. Segundo a inteligência do Departamento de Estado dos EUA, o grupo era financiado pelo cartel de Cali e liderado por Fidel Castaño5, ex-aliado de Escobar, e documentos desclassificados mostram que o Bloco de Busca, a força-tarefa encarregada de capturar Escobar, trocava informações com ele.

Los Pepes agiam exatamente como o inimigo que combatiam. Queimaram e explodiram propriedades de Escobar e de sua família, mataram pessoas do seu círculo e forçaram a mulher e os filhos dele a deixar o país12. Só em março de 1993, segundo a embaixada americana, quatro lugares-tenentes de Escobar foram mortos: dois pelas forças de segurança e dois por Los Pepes5.

Em 2 de dezembro de 1993, um dia depois de completar 44 anos, Escobar foi morto num telhado do bairro Los Olivos, em Medellín13. A vitória era real. O preço também: a caçada formou alianças entre a inteligência colombiana, traficantes rivais e ex-sócios de Escobar5. Pouco depois, os irmãos Castaño fundaram as milícias que dariam origem às Autodefensas Unidas de Colombia, que chegaram a ter 35 mil homens armados10.

Gandalf voltou do abismo transformado, como o Branco. O Estado colombiano voltou com as mãos sujas.

Moria continua escura

Depois que o Balrog cai, Moria não volta a ser um reino. Continua vazia e escura, porque o problema nunca foi só a criatura. Era a mina, e o que a mina atraía.

Com a morte de Escobar, quem se aliou para destruí-lo herdou sua cadeia de produção e suas rotas10. O cartel de Cali comandou o negócio por cerca de dois anos, até a captura dos irmãos Rodríguez Orejuela em 1995; depois vieram as federações e os chamados “cartéis bebê”14. Com o tempo, o controle da distribuição passou aos cartéis mexicanos15. A cocaína continuou saindo dos Andes.

A política que mira os chefões tem nome: estratégia kingpin, ou de decapitação. A ideia é simples: corte a cabeça e o corpo morre. A tática foi lapidada na Colômbia16 e depois adotada pelo México.

Vale uma ressalva honesta: segundo a cientista política Beatriz Magaloni, a decapitação funcionou melhor na Colômbia porque os cartéis de Medellín e Cali eram mais centralizados, e o governo colombiano também17. Funcionou para derrubar os cartéis, não para acabar com o tráfico.

No México, os resultados foram medidos. Um estudo de Gabriela Calderón, Beatriz Magaloni e colegas, publicado no Journal of Conflict Resolution, concluiu que prender ou matar líderes de cartéis aumentou não só a violência entre traficantes, mas também os homicídios na população em geral18. Segundo os autores, sem a cabeça as células criminosas ficam soltas e passam a atacar mais a população18.

Uma pesquisa independente de Jason Lindo e María Padilla-Romo, publicada no Journal of Health Economics, chegou a um resultado parecido: as capturas elevaram os homicídios no município da captura e também em outros onde o mesmo cartel atuava19. Matar o Balrog, em vez de esvaziar a mina, espalhou o fogo pelos túneis.

O ponto cego

A explicação centrada no monstro é confortável porque termina num telhado de Medellín. Há um vilão, uma caçada e um corpo. A história fecha.

Tolkien, que conhecia bem a natureza dos mitos, deixou uma pista em Moria. O Balrog não é a causa da ruína dos anões; é a forma que a ruína tomou. Quem lê a lenda olhando só para o fogo não enxerga a escavação.

O ponto cego da criminologia popular é o mesmo. Enquanto a demanda pagar pelo mithril e houver túneis sem Estado, alguma coisa vai acordar lá embaixo. Pode ter outro nome, outro rosto, outra cidade. Mas vai ter fogo.

A pergunta que fica não é como matar o próximo Balrog. É quando vamos parar de cavar.

Referências


  1. TOLKIEN, J. R. R. O Retorno do Rei. Apêndice A. ↩︎

  2. TOLKIEN, J. R. R. A Sociedade do Anel. Livro II, cap. 4-5. ↩︎

  3. REUTER, P. Prime numbers: doped. Foreign Policy, Washington, D.C., 16 out. 2009. Disponível em: https://foreignpolicy.com/2009/10/16/prime-numbers-doped/. ↩︎

  4. CALLEJAS OCHOA, S. Transformación de la ocupación del suelo en el marco de relaciones de clientelismo político: estudio de caso: barrio Pablo Escobar, 1982-1995. 2013. Trabajo de grado (Gestión y Desarrollo Urbanos) – Facultad de Ciencia Política y Gobierno, Universidad del Rosario, Bogotá, 2013. Disponível em: https://repository.urosario.edu.co/bitstream/10336/5706/4/CallejasOchoa-Simon-2013.pdf. ↩︎

  5. EVANS, M. (ed.). Colombian paramilitaries and the United States: “Unraveling the Pepes tangled web”. Washington, D.C.: National Security Archive, 2008. (Electronic Briefing Book, n. 243). Disponível em: https://nsarchive2.gwu.edu/NSAEBB/NSAEBB243/. ↩︎ ↩︎ ↩︎ ↩︎

  6. EL HERALDO. Mafia y fútbol colombiano, una vieja relación. El Heraldo, Barranquilla. Disponível em: https://www.elheraldo.co/deportes/mafia-y-futbol-colombiano-vieja-relacion-174859. ↩︎

  7. EL COLOMBIANO. En el barrio Pablo Escobar borraron un mural, pero el fantasma sigue en cada esquina. El Colombiano, Medellín, 26 jan. 2025. Disponível em: https://www.elcolombiano.com/medellin/en-barrio-pablo-escobar-medellin-borraron-mural-pero-el-narco-tour-sigue-AE26448338. ↩︎

  8. A 25 AÑOS de su muerte, los crímenes de Pablo Escobar siguen conmoviendo al mundo. La Voz de San Justo, 2018. Disponível em: https://www.lavozdesanjusto.com.ar/a-25-anos-de-su-muerte--los-crimenes-de-pablo-escobar--siguen-conmoviendo-al-mundo-54485. ↩︎

  9. SEMANA. Sacrificaron su vida por ver a Pablo Escobar tras las rejas. Semana, Bogotá. Disponível em: https://www.semana.com/nacion/articulo/sacrificaron-su-vida-por-ver-a-pablo-escobar-tras-las-rejas/202150/. ↩︎

  10. INSIGHT CRIME. Colombia. Disponível em: https://insightcrime.org/colombia-organized-crime-news/colombia/. ↩︎ ↩︎ ↩︎

  11. EL TIEMPO. ¿Qué pasó con las investigaciones judiciales por atentado a avión de Avianca? El Tiempo, Bogotá. Disponível em: https://www.eltiempo.com/justicia/investigacion/que-paso-con-las-investigaciones-judiciales-por-atentado-a-avion-de-avianca-433684. ↩︎

  12. IMMIGRATION AND REFUGEE BOARD OF CANADA. Information on Los Pepes (People Persecuted by Pablo Escobar). Ottawa, 1994. Disponível em: https://www.ecoi.net/de/dokument/1005168.html. ↩︎ ↩︎

  13. NOTICIAS CARACOL. Efemérides de hoy, 2 de diciembre: los hechos más importantes de la historia. Noticias Caracol, Bogotá, 2 dez. 2021. Disponível em: https://www.noticiascaracol.com/mundo/efemerides-de-hoy-2-de-diciembre-los-hechos-mas-importantes-de-la-historia. ↩︎

  14. INSIGHT CRIME. 20 años después de Pablo: la evolución del comercio de drogas de Colombia. InSight Crime. Disponível em: https://insightcrime.org/es/noticias/analisis/20-anos-despues-de-pablo-la-evolucion-del-comercio-de-drogas-de-colombia/. ↩︎

  15. MEXICAN cartels bolster foothold and alliances in Colombia. Diálogo Américas. Disponível em: https://dialogo-americas.com/articles/mexican-cartels-bolster-foothold-and-alliances-in-colombia/. ↩︎

  16. THE WORLD. Can Mexican cartels be defeated? The World, Boston, 2 ago. 2016. Disponível em: https://theworld.org/stories/2016/08/02/can-mexican-cartels-be-defeated. ↩︎

  17. CARTER, C. Mexico: beheading the hydra. Berkeley Review of Latin American Studies, Berkeley, fall 2013. Disponível em: https://clas.berkeley.edu/sites/default/files/publications/brlasfall2013-magaloni.pdf. ↩︎

  18. CALDERÓN, G.; ROBLES, G.; DÍAZ-CAYEROS, A.; MAGALONI, B. The beheading of criminal organizations and the dynamics of violence in Mexico. Journal of Conflict Resolution, v. 59, n. 8, p. 1455-1485, 2015. DOI: https://doi.org/10.1177/0022002715587053. ↩︎ ↩︎

  19. LINDO, J. M.; PADILLA-ROMO, M. Kingpin approaches to fighting crime and community violence: evidence from Mexico’s drug war. Journal of Health Economics, v. 58, p. 253-268, 2018. Disponível em: https://www.nber.org/papers/w21171. ↩︎

Leia também